domingo, 13 de agosto de 2017

Nomes

Imagem: Balneário dos Prazeres - Pelotas/RS - década de 50


depois de tudo
detrás daquela ruína
o altar que vi quando menina
ainda guarda os olhos de meu avô

aqui está o meu coração:
este amontoado de palavras
extraordinariamente pequenas
a dizer as coisas mais fundas

aqui,
nas duas notas que escuto
no que andamos distraídos
sobre o ouro que escondemos
antes mesmo da erosão

há um nome para cada coisa nesta tarde:
o misterioso vazio no centro do tronco
a sombra de tua mão sobre o meu ombro
a imensa lagoa que vai dar no mar


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sonho


Imagem: Daniela Delias


ele anda sobre meu sonho
com a força de mil homens
e molha os meus olhos
quando me tem
a marchar entre as pedras
à margem do esquecimento

repara: ele agora
é o mar de meu sonho
e quando se põe
a dizer meu segredo
é água que me bate à nuca

domingo, 11 de junho de 2017

Linha

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perdida toda palavra
haveria ainda
um anjo tatuado
entre teu nome e o meu
e quando a beleza impiedosa
de sua imensa asa escurecida
partisse de vez
a pequena linha escondida
entre teu nome e o meu
perdida toda palavra
haveria ainda
a delicadeza inequívoca
dos que se movem lentamente
em frente aos leões

sábado, 27 de maio de 2017

Sobre a águia e o cão





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aqui estamos:
entre o amor e a barbárie
tua pele, deposto o couro
exposta à fome
de um cão sem dono

daqui avistamos
as fendas que velam os cascos
os pequenos animais marinhos
as barras de prata escondidas
milhares de metros
abaixo da superfície

enquanto isso
um pouco mais acima
um zepelim de chumbo
circunda a águia
que julgávamos extinta
partindo sem dó
as entranhas
de uma manhã silenciosa

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pão

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alguma coisa arranha seu lábio
e corta o canto de sua boca
e você pensa: é o frio
o fio súbito e displicente 
de uma lâmina de papel

então você toma 
a folha entre os dedos
e com uma pequena parte
alimenta o fogo
e você diz: é só o corpo
meu bem, é só o corpo

é quando guarda 
o pão sob a língua
e come a própria espera


sábado, 22 de abril de 2017

A marcha

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move o pequeno corpo
pela linha extrema
de um eixo invisível

ergue-se sobre as horas
fosse inteira
aquele lábio entre os dentes
aquele cerco de fibras e ossos
devastando a tempestade

sabe deus do que é feita
o que molha quando anda
o que cala quando goza

mas nunca
do que se evade

domingo, 16 de abril de 2017

Rio


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agora que não há noite ou segredo
digo a ele que olhe calmamente

desde o último relógio
nada se prende às paredes:

casa é barco olhando o rio
tempo é casa abrindo a gente


quarta-feira, 29 de março de 2017

Curva

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e se em vez de arranhar o espelho
eu pusesse a mão sobre a nuca
e ante a curva do meu ombro esquerdo
o amor escorresse lentamente?

e se em vez de partir
mil flores de nada 
mil versos de quando
mil cacos em tudo
teus dedos pudessem
toda sombra todo muro
toda estrada todo monte

empurraríamos a pedra?


segunda-feira, 27 de março de 2017

Ao homem diante da pedra

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mordo minha própria cauda
minha língua, irmão, é de fogo
guarda essa fome em tua carne
crava essa noite em teus ossos:

são doces e largos
os lábios da serpente




sábado, 11 de março de 2017

Asa

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tenho entre as mãos
um pássaro morto

digo a ele que voe
que coma os olhos do inseto
que beija sua asa esquerda

não há dor ou espanto:
ninguém aqui nunca soube
o que é um pássaro


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Brio

Imagem:
Illustrated London News, 1915. (Photo by Hulton Archive)

Para Ana

é verdade que ainda sangro
e que às mulheres
por brio ou obscuridade
é dado sangrar em silêncio

mas veja minha irmã e eu:
a carne exaurindo a noite
as luzes todas acesas
o coração ruidoso

se agora canto
é porque desaprendi
a morrer primeiro

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Roda

Marcel Duchamp - Roda de Bicicleta (1913)


há este pequeno círculo 
de lábios e pernas
girando as horas
acima de teus ombros

são duas, três voltas
mil vozes nuas
mil passos cegos
a dar em coisa alguma

deste pequeno círculo
sou o furo, a sombra
o olho que cobre a fresta

não sei se escapo
ou espio o mundo

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Moedas

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inútil dizer da escuridão
a forma como afirma sua solidez no mundo

agora, por exemplo
um menino grita 
à mulher que o deixa
entre átomos de silêncio

agora, tão perto
o menino chora
e atira pro alto 
um punhado de moedas
- não preciso delas, ele diz
não preciso, filha da puta

inútil dizer que a cidade vive
quando o que mais me invade
é o cheiro tardio dos peixes

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Folha

Imagem: Daniela Delias


não diríamos nada
sobre os velhos talheres
ao lado da carne nova
que devoraríamos aos poucos

mas ele sabe: nada nunca é novo
nem esta minúscula folha
nascida agora no alto do tomateiro
nem esta ilusão ruidosa de concha
sobre o mar que nunca estará

e entre todas as coisas não ditas
haveríamos de romper a carne
e erguer antigos copos
enquanto pudéssemos calar
ao beber das mesmas vinhas


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Refúgio

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veja bem: é preciso
um pouco de ternura
e alguma eloquência
um topo de mundo pro salto
uma língua estendida pro gozo
uma carta em que alguém diga
nenhuma sombra em meus olhos
nenhuma casa em meu nome
nenhuma dor por refúgio
agora, deito-me aqui


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Frestas

Imagem retirada de https://pixabay.com/p-695010/?no_redirect


no centro da sala
o que não está
ocupa agora o imenso espaço
entre a mão e a xícara

posso vê-lo também
entre os pratos
atrás da pilha de roupas
preso aos botões e agulhas
desfazendo a mala
estancando o sangue

não posso dizer se o amor
é o que permanece ou a falta

há coisas que existem
profusamente             
na desmesura das frestas
em que não estão


domingo, 22 de janeiro de 2017

Entre

Imagem: Daniela Delias


a fera repousa agora
no imenso deserto que invento
entre a boca e o colo

mas quando suas garras
cruzarem o escuro
abrirei a porta
e beijarei seus olhos

até que me queira
até que me cale
até que me diga

tenho, tenho que acordar


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Mapa

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o deus em sua boca
crava de mundo a falta
cobre de corpo a casa
jura ventanias, rebeliões

e quando digo
- vê, é noite ainda
o deus em sua boca
abre-se mapa-múndi, avenida
e guarda entre seus dentes
as sombras de meu antigo nome


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Dezembros

Imagem: Daniela Delias


enquanto nos abríssemos com as mãos
moveríamos os olhos em direção à tempestade

do lado seco, 
pálpebras que se fecham
sem peso ou promessas

do outro, 
este feixe de amor e memórias
esta rede de minúsculas pedras
onde o mar se deita

(há coisas que só vejo 
em dias de chuva)



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Lâmina


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a lâmina pressente
o sumo sobre a língua
a carne ainda quente 
a exatidão do corte

eis a minha sina:

tua sombra contra os dentes
a boca entreaberta
a fruta pela metade

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Avenidas

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à memória do teu olho esquerdo
atravessando as linhas do meu rosto
digo que tudo é mais
e chama

a vida
este ir e vir
de trens cansados
em avenidas subterrâneas

o amor
esta pequena armadilha
uma cidade sobre a outra
uma saudade que dissesse

é tempo de abrir a pele
e andar sobre o fogo

domingo, 6 de novembro de 2016

Canteiro

Imagem: Daniela Delias


no vão que faz o vestido
quando afunda entre as pernas
pus as pequenas pedras
e agora invento uma cidade

que pode uma mulher
quando arquiteta um templo
sem que lhe dobre o punho 
sem que lhe pese o colo
sem que se parta em muitas?

as menores coisas
dei de mover uma a uma


domingo, 23 de outubro de 2016

Meteoros

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despenco sobre os acontecimentos
(há tanta beleza e selvageria)

os homens em torno da mesa
ainda falam sobre Dylan
e eu penso what's a sweetheart like you
doin' in a dump like this?

há tempos falamos alto
e distraímos a morte
colhendo flores
traindo desertos

de todo modo, cá estamos
feras e meteoros
em algum ponto
entre o céu e o asfalto
passando sem ser vistos


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Deuses


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é sempre o mesmo poema
este em que digo do amor 
ou outra espécie de orfandade

mas ele pede que eu escreva
ele teme que eu me esqueça
e à semelhança de outros deuses 
se põe a catar serpentes sob meus ossos

é sempre o mesmo poema
que me abre que me quebra que me come 
e nunca nasce

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Andarilha

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no que foi a manhã sem curso
cresce agora a palavra tempestade

antes a tivesse engolido
quando eu mesma torvelinho
movia meus nervos e lábios
a perguntar por ti

no que fui um feixe de músculos
vê-se agora um devir de pássaros

antes os tivesse esquecido
quando eu mesma andarilha
alheia a meus ossos e nomes
parecia a palavra multidão


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ofício

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quando cheguei
os homens dormiam
e as mulheres cantavam

eu dancei com elas
e jurei
dizer seus nomes
cerzir suas roupas
ouvir seus filhos
banhar seus mortos

quando cheguei
e os homens dormiam
as mulheres cantavam

eu dancei com elas
e jurei
poder me ouvir cantar


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ave

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depois daquele janeiro 
ninguém me viu sangrar 
tampouco dizer que a morte
é quem me toma 
o poema mais sutil

talvez a visão inesperada
da coruja sobre a lixeira
a forma como gira a cabeça
como move suas garras
como engole tudo inteiro 

ou a memória de nossos olhos
devolvendo a cada noite 
a mais perfeita escuridão


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Barcos

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você me pergunta se tudo está bem
digo que chove há mais de uma semana
e que nem por isso recuamos

uma espécie de riqueza, você diria
isso d’eu por as mãos em seu peito
supondo barcos ao longe

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Cartografia

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o que se move, 
grande amor, 
é a estrada.

não é preciso enumerar os passos
ou dizer de algum mover mais fundo

ocupo-me agora das pequenas folhas 
que se erguem entre as margens
e penso se devo fechar os olhos
ou cartografar seus brevíssimos voos



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Contemporâneas: Antologia Poética



Contemporâneas: Antologia Poética reúne 60 poetas brasileiras, com seleção de Adriane Garcia. Muita gratidão por fazer parte. Abaixo, o link para acesso. 

https://issuu.com/vidasecreta/docs/contempor__neas_-_antologia_po__tic



Roteiro


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armar as palavras não ditas 
com o metal de nossos sonhos

beijá-las vertiginosamente
antes que nasçam
antes que quebrem
antes que partam

não dizer que uma língua que cala 
é uma língua que sangra

escrever um poema de amor 
que por não saber 
o diga


domingo, 24 de julho de 2016

Gesto

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um gesto claro, eu diria

este de escorregarmos pra fora
até que a memória acendesse ternuras
por campos inteiros de obscuridade

só depois pediríamos à noite 
que estendesse sua língua de fogo
sobre nossos olhos cansados

só depois nos diríamos
o que mães dizem às filhas
quando inauguram o primeiro silêncio 



domingo, 19 de junho de 2016

Trópicos

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não entendo
a posição dos ventos
a duração dos dias
mas sei de deuses 
que falam às sombras 
quando dançam sobre os trópicos

desde este braço de rio
tudo estranho, desconheço

sou eu esse salto de peixe
partindo o oceano 
em mil engrenagens

sou eu esse voo na noite
tomando do inseto 
a ausência de ossos

(Releitura - poema antigo que virou outro.)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Lanças

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aconteceu de chover tanto
que cogumelos imensos
nasceram no concreto

justo hoje que não diria
dos punhais sobre o sonho
vesti minhas luvas
cerquei-me de lanças
vi meu coração partido

há coisas 
que simplesmente nascem:
não se pode dissuadir a vida 
de sua natureza terrível

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Palimpsesto

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o que permanece
sobe e desce escadas
cora e trança cabelos
ressente-se das horas
assenhora-se dos pássaros

escrevo sobre as folhas
de um abril adormecido
escrevo sobre as cinzas 
de uma cidade soterrada
escrevo sobre você
homem de outro tempo

(ruínas não ocultam 
imaterialidades)


quinta-feira, 31 de março de 2016

Fogo

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não importa
se me tomo de muros
se me cubro de medos
se me doem as horas:

teus olhos erguem sobre meu sonho
duas colunas negras, luminosas

é quando danço sobre o fogo
e digo às coisas que se calem
e se ocupem de devolver à noite
algum silêncio ou escuridão

quarta-feira, 16 de março de 2016

Cortejo

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toco sua boca e você fala
sobre o vermelho da minha

não vê que é você
à frente do cortejo
lambendo as feridas
juntando os ossos
acordando a cidade

não fosse a pressa 
dos que passam
o sono dos que ficam
a indolência dos que partem
estaria em todo canto:

na mesa de centro da sala
nos olhos dos homens que amo
nas mãos que dividem o dia
em mil pedacinhos de nada